Uma mulher, um cachorro e uma garrafa. Os três jaziam imóveis sobre a areia morna da praia. Apesar de ser inusitado o torpor do cão, um animal de apartamento em liberdade, e o da mulher, uma professora em constantes crises de espasmos. Apesar, sobretudo, da garrafa ser um artefato extraordinário – por séculos submerso – que por obra do acaso aportou naquele cenário onde o tempo fazia pouco-caso em realizar seu trabalho. Era espantoso. A paisagem, uma vastidão de água e areia, além de alguma vegetação, pouco se alterara desde priscas eras.
A mulher permanecia sentada sob o sol. Mantinha a coluna reta, as pernas cruzadas e o olhar cravado no horizonte. Diante dela o mar se estendia por quilômetros numa monotonia inquietante. A brisa marinha sumiu e sua pele nem deu falta. Como também não reparou que as plantas rasteiras, suspensas aqui e ali na areia, perderam o vaivém natural. Nem mesmo notou que o rumor incessante das coisas da terra desapareceu. O mundo havia se congelado. Parecia preste a tirar uma fotografia.
Uma minúscula mancha escura surgiu lá onde o mar encontra o céu. O azul uniforme e abstrato foi trincado pela nódoa, que rompeu a vontade monumental de quietude. Poderia ser apenas um inseto no paraíso, não fosse a impressão de que crescia pouco a pouco. Mas a mulher continuava impenetrável, presa em suas teias mentais. O cachorro tão pouco dera pela situação. Cochilou de tédio. Só o rabo ficou em vigília para espantar moscas imaginárias. A garrafa, essa sim, trepidou em dimensão molecular. Disfarçando sua imobilidade, roçou a perna da mulher sem que ela atinasse a extravagância do fato.
No entanto, a alma da mulher foi tocada. Ela deitou na areia e buscou no céu a sua transitoriedade. Queria ver nuvens, pássaros, um cisco voando. Nada. O céu era uma massa etérea de um azul irretocável. Angelical, pensou. E adormeceu. A boca aberta, o pensamento esquecido de si, a aparência de morto resignado, cujo esquife, a areia da praia, guardava o corpo cansado e tenso. A beatitude tão almejada chegou.
— Psiu! Você aí, hei, hei! Que anos estamos?
— Ui. O que é isso?! E a mulher se pôs de pé num salto. Diante dela uma figura gigantesca a encarava interrogativa.
— Meu Deus do céu! Gritou enquanto corria para longe.
O monstro materializou-se na sua frente. A mulher, sem saída, repetiu a fuga em disparada. Mas lembrou do cachorro.
— Neo. Jesus, o Neo! Neo, vem cá!
O cachorro não sabia se ladrava ou se fugia. Sem decidir, fazia os dois, numa dança que levou o gigante a rir um riso de gigante. Ele soltou uma gargalhada vinda de um lugar onde estivera oculta por cinco séculos. Com o estrondo, o mar se avolumou e uma onda derrubou a todos, menos a enorme criatura.
— E então, em que anos estamos?
— 1991. Respondeu a mulher, cedendo ao temido inquisidor.
— Nossa! Humanos não usam mais roupas? Você é humana, não é? E o ogro tentou pegar o lacinho do biquíni com um dedo maior que a perna da mulher. Ela caiu de novo. Mas dessa vez levantou enfurecida.
— Escuta aqui, quem você pensa que é?! Não me toca não!
— Calma. Sou um gênio. Estava confinado naquele frasco ali. Auromis, o pássaro do oriente, me libertou quando você encostou na superfície de vidro três vezes. Não quero machucá-la. Muito pelo contrário. Eu lhe concedo três desejos.
— Sério, três desejos? Hum… Deixa eu ver.
Primeiro, me arranja um guarda-sol. Depois, uma água de coco. E por último, vaza daqui. Você quase destruiu o meu único dia de folga e sossego.
— Mas eu preciso entregar pelo menos um desejo grandioso para você. Já sei. A imortalidade!
— Nããaão!!!


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