Maria Júlia
Outro dia na TV, um documentário impressionante sobre um navio quase fantasma, afundado há 10 anos atrás, em um dos locais mais abandonados do mundo, a Antártica. O acidente aconteceu por vários motivos, entre outros, falha na preparação do barco e condições climáticas extremamente adversas. Dias após, a reprise do filme Titanic. Pesadelos. Sempre tive medo de morrer afogada. Só o poeta Caymmi para cantar que é doce morrer no mar. Que doce, que nada! O mar é de uma beleza assustadora, até o Mar Morto com o marasmo que lhe diz respeito. Pois mesmo sendo falecido, abriga tragédias e afoga peixes. E o que dizer do plácido e cinzento Mar do Norte, cujos ventos gélidos e vigorosos arrastam barcos e barqueiros! Atração fatal a minha. Nasci e cresci à beira da sua formosura. Certa vez, quando garota, meu pai foi ao meu socorro na praia do Leme. A história da família diz que ele seria ancestral de piratas holandeses que no passado navegaram pelo Estado do Rio. Talvez. Considero-me incluída nesta história. Eu admirava a alegria e a facilidade que ele tinha de ir bem longe, de onda em onda, para depois, sorridente e confiante, voltar para a beira da praia. Após o tal episódio, fiquei com medo de perder o chão, o terreno. Ainda assim, emigrei. Atração fatal pelo que é longe, vagamente perigoso e um ligeiro gosto por aventuras e homens do mar, haja vista um namorado surfista da minha belle époque carioca.
Certa vez, fiz uma longa viagem de navio. Onze dias em cenário de diversos tons de azul, incríveis histórias de bordo, era tudo atraente e divertido no primeiro ato. Depois, veio a agonia de me sentir carregada por aquele mar sem fim, sem ver uma ilhazinha, um pontinho de terra. Navegar sem pausas para uma terra que nunca chegava. A Terra do Nunca.
Em Marselha, cidade que apela à imaginação, lugar de marujos e corsários, há uma escadaria desafiadora que vai direto ao mar e que a gente fita com a nostalgia dos velhos marinheiros. Contemplar, pensar, meditar, admirar. Em Marselha ou no Leme, por que não?


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