Profundo é a pele

Júlia Alexim

Profundo é a pele. O incompleto do sexo, o toque impossível, corpos condenados a nunca ocuparem o mesmo espaço. O desejo de atravessar seu tórax e parar antes de chegar ao outro lado: esticar, contrair, relaxar. Marcas vermelhas nas suas costas com as formas dos dedos que insistem, fazem força, mas não podem penetrar. O sonho de embaralhar os tornozelos morre no desenlace do nó das pernas cegas sempre frouxo, fácil de soltar. Ondas que esticam mais de um lado que de outro, sem cobrir toda a areia. As águas mais ferozes avançam, vislumbram seu destino, cheiram suas casas, se alongam enquanto podem com a dor, chegam à beira da porta, tocam em prantos o lar onde nunca poderão entrar, despencam e, exaustas, são sugadas pelo mar.

2 responses to “Profundo é a pele”

  1. O poema me tocou. Fiquei entre limites e desejos no desenrolar dos encontros. No movimento de aproximar e de afastar, de ser onda e de ser matéria ao mesmo tempo. Um eterno entre, onde se afirma a beleza e a impossibilidade de dois ser um.

    Curtir

  2. Avatar de Maria Julia Abreu
    Maria Julia Abreu

    O incompleto do sexo, o toque impossível, corpos condenados a nunca ocuparem o mesmo espaço…

    Uma descrição bastante vigorosa e intensa sobre o anseio de fusão, de simbiose total com o outro, de habitar o mesmo corpo, de se anular em nome de se tornar um só. E do pesar de constatar a inviliabilidade desse desejo. Da relação de simbiose, interdependência entre duas pessoas que se complementam e sofrem, ao soltar os nós. após o sexo. Só possível nos mitos, em que uma ninfa, pela força de seu desejo, pede aos deuses para se unir para sempre ao objeto de sua paixão, e os dois acabam virando uma coisa só.
    Seu texto faz refletir.

    Curtir

Deixar mensagem para Maria Julia Abreu Cancelar resposta