Eliana Gesteira
A conversa não se estendeu. Todos sabíamos que aquele dia chegaria. Eu já andava desconfiada muito antes do fato se consumar. Denunciaram os cochichos e os olhares inquietos. Para ter certeza, passei a brincar dentro de casa, perto de papai e mamãe, em vez de brincar no quintal com os irmãos. Eles falavam baixinho, eu pescava uma palavra ou outra. Escola, futuro, Elzinha, magra demais. Associei com o interesse repentino da tia e compreendi. Falavam de mim e aquele futuro era o meu. Nunca perguntaram o que eu pensava. Meus oito anos de criança, que não tinha querer, não permitiam.
Um dia, ao disputar corrida com um de meus seis irmãos, caí e feri os olhos a ponto de quase cegar. Daí cessaram as dúvidas. Meus pais cederam à insistência da parente sem filhos e viúva de militar que vivia em um bairro com prédios, ruas calçadas e água que saía nas torneiras. Ao limpar o sangue no meu rosto mamãe explicou, Lá, nesse lugar, você terá vida melhor e também uma boa escola. A Dirce cuidará bem de você, vai ver. Eu queria ver. Mas as mãos de minha mãe tremiam.
Os dias seguintes foram de refeições em silêncio, brincadeiras sem gritos e de cachorro a bater o rabo no chão. Eu chorava e meu pai não me colocava no colo e nem contava histórias sobre os mundos fantásticos que eu veria. Minha mãe não deixava. Dizia que era para me acostumar. Meus irmãos seguiram os dias que antecederam à minha partida arrastando a tristeza pela casa e me olhando como se eu fosse uma estranha desde sempre.
No dia em que a tia veio me buscar, meu irmão mais velho me chamou para brincar de pique-esconde. Nós todos corríamos pelo quintal, mas sem vontade de encontrar esconderijo. Ficar juntos era a melhor brincadeira. Tia Dirce chegou e continuamos a correr. Ela, meu pai e minha mãe acompanhavam da porta. Ao avistá-los, levei um tombo e, aos berros, corri até eles. Quem estendeu os braços foi a tia Dirce. Passei direto e entrei para dentro de casa. A minha casa.
No momento da despedida não houve abraços. Nos tocamos com os olhos. Meus pais se amparavam. A mãe com a cabeça enfiada no peito do pai. Quando vi surgir o carro, lágrimas escorreram e me embaçaram os olhos. Senti a mão de minha tia pegar a minha e me arrastar até a porta traseira do automóvel. Logo em seguida o motorista deu a partida e saiu devagar.
Eu desabei no banco. O rosto coberto pelas mãos para que não me vissem chorar. Mas os soluços sacudiam meu corpo em tremedeira friorenta. Aos poucos o mutismo dos adultos empurraram a tristeza para um canto. O desprezo foi anestesiando minha alma e a revolta desapareceu. No vazio se instalou definitivamente a dissimulação, mesmo sem eu perceber que se escondia ali. O que soube, de alguma forma, foi que não havia esperança no destino que traçaram para mim.
Com o passar da hora e o andar macio do carro, me acomodei na poltrona. Nunca tinha andado de carro antes. Aquele parecia a nave espacial do desenho animado que vi na televisão da vizinha. O banco de molas dava vontade de pular. Balancei as pernas e espiei a tia pelo canto do olho. Desisti. Olhar a paisagem me pareceu menos arriscado. Casas, quintais, mulheres, roupas nos varais, crianças. Tudo aquilo era parecido e ao mesmo tempo diferente do que eu conhecia. Levantei do banco e encostei a cabeça no vidro para ver melhor. Minha tia puxou meu braço e um comporte-se soou pela primeira vez em meus ouvidos.
Voltei a recostar no banco. Um gosto ruim de óleo de rícino permaneceu no fundo da minha boca até o final da viagem. A visão à frente era as costas do banco preto do motorista; na lateral, o céu e umas árvores que corriam; ao meu lado, a tia, pés firmes no chão, queixo e peitos a desafiar a gravidade. O balanço suave fez com que eu adormecesse. Acordei com outro puxão, Chegamos! Levanta logo. Anda!


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