Maria Júlia
A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre, por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente. – Dom Casmurro, Machado de Assis
Curioso, o mestre se queixar disso no final do século dezenove. Se vivesse atualmente, precisaria de páginas e páginas para descrever o desgaste, agonia e irritação em correr atrás de cartões, senhas, acessar links, websites, códigos, escrever mensagens, reclamar respostas, e passar dia e noite com o telefone celular em punho.
Relataria, mordazmente, o que significa ser coagido a depender de uma coisa, um objeto, que nos afasta de tudo que está em volta. Um artefato decididamente alienante. Enfim, algo que pode ser furtado, esquecido, quebrar, mas que sem o qual hoje ninguém é alguém, sem o qual, a vida é nada. Algo que, muitas vezes, dá vontade de jogar pelo o ar, ou para o mar. Observaria que o ser humano é um animal mal pensante, escravo dos hábitos. Mais adiante, mencionaria, por exemplo, os esportistas, obcecados em romper recordes, vício comparado ao do álcool. Uma cervejinha só não serve. Duas também não, e assim, aumenta-se a dose e a velocidade da corrida. Adoramos ser dependentes. Para depois, nos queixarmos das consequências. Há dias vi um filme sobre um homem gordo, feio, que viciado em comida, vai ao Japão em busca do sabor umami, único, supremo, onde o paladar foi detectado. Aprende que há vários sabores do tipo. Descobriu que um, de suma importância, está no leite materno.
Imagino que lá em Viena, outro grande pesquisador de almas, teria louvado o cientista japonês, descobridor do quinto sentido, e exultado em constatar que a teoria edipiana repercutiria na ciência oriental. E para dar um fim a essa original, para não dizer louca, associação de ideias, volto ao Cosme Velho, onde, sem utilizar nenhum dispositivo eletrônico, o nosso bruxo produziria O Alienista, crônica de leitura obrigatória nas escolas.


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