Carolina Geaquinto
Mas a caminhada de que falo não tem nada ver com fazer exercício, como chamamos, como um doente toma remédio em determinadas horas […]; é antes o propósito e a aventura do dia.
(Henry David Thoreau, Walking, p. 4. Edição do Kindle, minha tradução)
O jeito que as crianças têm de andar saltitando em caminhadas absolutamente comuns, pelo corredor da escola, em casa: da sala para o quarto, dentro de um supermercado, é um jeito que transparece uma liberdade de se movimentar que as pessoas adultas não costumam praticar. As pessoas adultas andam sempre mais ou menos do mesmo jeito. Sem saltitos inesperados, sem passadas mais largas à frente ou de um lado para o outro, sem movimentar os braços de algum jeito abstrato, sem zigue-zague. Claro, tem quem rebole mais, quem ande robótico, quem ande torto, quem balance muito ou pouco os braços. Acontece que se não tivermos nenhum impedimento físico, andamos todos muito parecidos e mais ou menos do mesmo jeito. Não te parece tedioso?
Há exceções, como os corredores e outras pessoas se exercitando, os que bebem ou os que enlouquecem, as modelos, os soldados. Esses caminham diferente por lazer, alterações da consciência ou disciplina. E caminhar diferente só porque se quer, quem caminha?
Queria caminhar como se minha vida fosse um musical de Hollywood. Queria ir à padaria saltitando de vez em quando, feliz com a expectativa do pão fresco e quentinho. Queria caminhar pé ante pé, no meio fio, com os braços abertos, no caminho até a igreja. Queria pular entre um bloco e outro de paralelepípedo que separam a rua entre o estacionamento e o escritório. Queria praticar uma caminhada completamente descoordenada só por caminhar assim. Queria caminhar dançando e rindo que nem a gente faz no carnaval só que dessa vez indo para o ponto de ônibus num dia qualquer. Ninguém olha estranho para as crianças saltitando, será que olhariam para mim?
Quando eu era adolescente, costumava tropeçar muito, às vezes com local e hora marcados: meio-dia, na calçada comprida rumo ao portão de saída da escola. Como quem tropica também cai, às vezes eu me desequilibrava totalmente e os amigos riam de mim. Ficava brava. Hoje riria com eles, sentindo saudades de andar destrambelhada.
Caminhar livremente, sem me importar com olhares e com o que vão pensar. Caminhar sem temer os movimentos espontâneos do corpo ou os propositalmente ridículos e fora do esperado. Reler Buda: toda caminhada começa com um simples tropeço.
quem sabe
o mundo
quem sabe
um dia
quem sabe
as flores
quem sabe
o sol
quem sabe
a noite
quem sabe
as abelhas
quem sabe
o acaso
quem sabe
o caminho


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