Alice

Vaneska Mello

Adélia acordou aos 40. Sem faca, sem queijo e sem fome. Leu, anotado no caderno de rabiscos, o aforismo cretino: “os primeiros quarenta anos de vida dão-nos o texto, os trinta seguintes, o comentário.” Seu texto não estava completo, longe disso. Era só um rascunho. Pintou as unhas de vermelho.

Adélia acordou aos 42. Estava pronta para a festa, mas com a impressão de que a celebração estava no final. Não era justo. Se vendo em Hilda, o tempo a estancar jorros de vida, apelou socorro ao vinho. Pintou as unhas dessa mesma cor.

Adélia acordou aos 43. Descendo degraus. Agarrada a corrimões. Sentindo-se corroída. Temendo a invisibilidade que os prazos impõem ao que é superfície. O tempo a secar o desejo e suas antigas batalhas, ao lado de Cecília. Pintou as unhas de nu.

Adélia acordou aos 50. Encarou no espelho o mapa que a pele estampa. Corrigiu os percursos. Dispôs folhas em branco pra todos os seus textos. Abriu as comportas. Era clara e visível. Arrependeu-se de contar os dias. O tempo, deus maldoso que se julga dono de tudo, só é deus de quem ajoelha. Seu tempo é ser. Acordou meio Alice, desejando que tudo seja leve, tão leve que o tempo nunca leve. Nunca mais pintou as unhas.

Vaneska Mello

*Citações não literais de Adélia Prado, Hilda Hilst, Cecília Meirelles e Alice Ruiz.

*Citação literal de Arthur Schopenhauer 

Créditos da Artista Plástica Andréa Tolaine (http://www.andreatolaini.com.br/)

3 responses to “Alice”

  1. Avatar de Eliana Gesteira
    Eliana Gesteira

    Nessa prosa poética, mulheres e referências de suas artes – visual, literária e musical – refletem o passar do tempo. A personagem completa ciclos de vida e se desnuda para chegar, senhora de si e plena de vida, ao hoje, fugaz eternidade.
    Texto espelho. Presente da poeta Vaneska para nós, leitoras e admiradoras.

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  2. Em um texto com inspirações em várias escritoras, recorto aqui as minhas preferidas da própria Vaneska: “Temendo a invisibilidade que os prazos impõem ao que é superfície.” e “O tempo, deus maldoso que se julga dono de tudo, só é deus de quem ajoelha.”. Que bonito o texto, o tema e essa construção em colagem e diálogo.

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  3. Avatar de Maria Julia Abreu
    Maria Julia Abreu

    “Seu tempo é ser”. Para mim, isso condensa o tema do texto. A personagem vai abrindo as comportas, fazendo o seu percurso, pintando as unhas de acordo com o humor, sabor e cor do momento em que está. Dando “um fora” ao tempo e antecedendo a desejada e, porque não dizer- tolerável- leveza de ser.

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